Nos 75 anos da morte de Freud, faça um passeio pelos divãs de Viena

 

 

Nos 75 anos da morte de Freud, faça um passeio pelos divãs de Viena

 

 

 



 

 

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Nos 75 anos da morte de Sigmund Freud, faça um passeio pelos divãs da capital da Áustria, cidade onde morou por 78 anos.

 

Os sentimentos de Sigmund Freud em relação a Viena variavam da ambivalência ao puro ódio. “Viena me oprime”, ele escrevia em suas cartas, descrevendo a cidade ora como “nojenta”, ora “quase fisicamente repulsiva”, referindo-se à sua gloriosa catedral, a St. Stephen’s, como “aquele campanário abominável”, reclamando de seus seguidores vienenses sofisticados, fãs da música e dos cafés da cidade: “Pena que não têm um traseiro só para eu poder espancá-lo com uma varinha”.

 

É claro que a capital austríaca foi o lar de Freud durante 78 anos e a antipatia que nutriu a vida inteira pelo lugar se contradiz pelo simples fato de ele nunca ter nem tentado ir embora. Fugiu dos nazistas uma vez, na hora H, em 1938, muito depois que seus amigos e clientes poderosos lhe imploraram para sair. Finalmente resolveu tomar uma atitude quando sua filha, Anna, foi interrogada pela Gestapo. Logo depois, em seu exílio luxuoso em Londres, Freud comentou que sua libertação “se mesclava com a dor, pois ainda tinha muito amor pela prisão da qual tinha se libertado”.

 

É bem provável que o bom médico, cuja morte completa 75 anos neste dia 23 de setembro, fosse o primeiro a admitir que sua complicada relação de amor e ódio com a cidade exigisse uma análise mais detalhada.

 

Eu cheguei a Viena em junho, no centenário do assassinato do Arquiduque Franz Ferdinand, em Sarajevo, mas ninguém precisa presenciar a comemoração de uma data histórica tão importante para entender o que a cidade representava antes das duas guerras mundiais e o que se perdeu irremediavelmente depois que elas aconteceram: não foi só a música de Strauss, mas também um estilo de vida.

 

“Em nenhum outro lugar era tão descomplicado ser europeu”, escreveu Stefan Zweig, o grande fã do estilo cosmopolita vienense responsável pela eulogia de Freud e que, menos de três anos depois, em 1942, tirou a própria vida, incapaz de ver sua “pátria espiritual” se autodestruir.

 

 

Josef Polle­ross/The New York Times

3 - bairro judeu - viena

A padaria Ohel Moshe Bäckerei fica no bairro judeu de Viena, onde Freud foi criado

 

E em nenhum outro lugar era tão fácil ser louco. A história psiquiátrica de Viena começou muito antes de Freud e seu famoso divã. No fim do século 19, bastava os vienenses olharem para os membros da família Habsburgo para comprovar todo tipo de histeria. Havia o príncipe Rudolf, depressivo e viciado em sexo que matou a amante e cometeu suicídio e, é claro, sua mãe, a bela e anoréxica Imperatriz Elisabeth que disse ao marido, Franz Joseph, que só queria “um sanatório completamente equipado” de aniversário.

 

 

Café e tabaco

 

Mal larguei as malas no hotel e me dirigi imediatamente ao Café Korb, onde os integrantes da Sociedade Psicanalítica de Viena se encontravam no início do século 19. Nas paredes, fotos antigas do café original: meio sujinho, meio grandioso, tinha mesas manchadas e lascadas e candelabros art nouveau — que, aliás, não têm nada a ver com o atual Korb, mobiliado no melhor estilo dos anos 50 e cheio de fotos sensuais de sua dona, a atriz e artista performática Susanne Widl, à beira de uma piscina — um início nada auspicioso da nossa excursão em busca do legado freudiano.

 

Na minha cabeça, se alguém quiser realmente imaginar como era a vida de Freud em Viena, teria que começar mergulhando na fumaça. Minha mulher, Yana, e eu nos hospedamos no novo Park Hyatt, instalado no prédio que antes abrigava um banco, em uma das praças mais antigas da cidade, a Am Hof.

 

O cofre foi transformado em uma piscina subterrânea belíssima, mas fomos atraídos para o bar de charutos, que tem um clima opulento, imperial e bem renascentista: livros com capa de couro, madeira polida e um retrato a óleo do imperador barbudo Franz Joseph. Eu não tenho nem estômago, nem a coordenação motora necessária para fumar um charuto de verdade, por isso acendi uma cigarrilha Davidoff, meio sem graça, e me afundei em uma nuvem docemente putrefata, bebericando schnapps e folheando “Totem and Taboo”.

 

Freud dizia que todos os vícios — incluindo o fumo e o álcool — são basicamente substitutos para o vício primário: a masturbação. Essa conclusão, porém, não fez nada para diminuir seu interesse pelo tabaco; na verdade, ele era tão viciado que os não-fumantes o ofendiam. Uma vez ofereceu um cigarro ao sobrinho de 17 anos e, quando o jovem recusou, Freud o avisou, dizendo: “Meu garoto, o fumo é um dos maiores prazeres da vida, e um dos mais baratos também; e se decidir não fumar, só posso sentir pena de você”.

 

 

Josef Polle­ross/The New York Times

2 - narrenturm - viena

Em Viena está a Torre dos Loucos, parte do hospital psiquiátrico mais antigo da Europa

 

Mais tarde, Freud desenvolveu câncer bucal e foi submetido a mais de trinta cirurgias no céu da boca e na mandíbula. Seu biógrafo, Peter Gay, escreve que, no final, a ulceração causada pela doença causava um odor tão fétido que seu adorado cão, Lün, fugia dele. Pensei então, apagando a cigarrilha no cinzeiro, que certamente haveria outras formas de canalizar o fantasma vienense de Freud além do fumo.

 

 

Em busca da ciência

 

Sigismund Schlomo Freud nasceu em 1856 em Freiberg in Mähren, na Morávia, que hoje é Pribor, na República Tcheca. Em 1860, seus pais seguiram o exemplo de outras famílias trabalhadoras e se mudaram para o bairro judeu de Viena, Leopoldstadt. Considerando que a comunidade foi aniquilada durante a Segunda Guerra Mundial, não deixa de ser um milagre o fato de oito mil judeus viverem na cidade atualmente e que vários deles – a maioria ortodoxa, originária da antiga União Soviética – voltaram a se estabelecer em Leopoldstadt. O bairro em si é bem sem graça, composto quase que somente de prédios de apartamentos da era pós-guerra à volta do parque Prater, onde Freud brincava quando garoto.

 

A comunidade atual é grande o suficiente para justificar a presença de um punhado de supermercados kosher e uma padaria excelente, a Ohel Moshe, com direito a seu próprio café, graciosamente decadente. Um dia, na nossa parada matinal ali, nos deliciamos com rugelach gorduchos de chocolate e kleine golatschen — mini folhados de queijo — mas sentindo certa culpa de nos aproveitarmos de um poço há muito perdido da cultura judaica. “Tem gosto de cidade do interior”, disse Yana, com aprovação na voz.

 

O clima econômico favorável e leis mais liberais permitiram aos judeus que haviam imigrado para Viena, como a família de Freud, vindos de outras partes do Império Austro-Húngaro, a assimilação e a mobilidade nos bairros gentios. Em 1880, eles respondiam por dez por cento da população, mas mais de 50 por cento dos financistas, jornalistas, advogados e médicos. Freud se encaixava, obviamente, na última categoria, e foi na Universidade de Viena, onde estudou e depois lecionou neuropatologia, que teve os primeiros contatos com o antissemitismo.

 

 

Josef Polle­ross/The New York Times

5 - museu de viena dedicado a freud

O museu de Viena dedicado a Freud exibe a bengala e o chapéu do pai da psicanálise

 

Caminhando pelo campus sonolento de hoje, lotado com cafés, é difícil imaginar até que ponto a Viena do século 19 estava na vanguarda da medicina. Campos diversos como radiologia, medicina forense e dermatologia se desenvolveram aqui, sem contar a noção — radical para a época — de que os médicos deveriam ensinar os alunos ao lado da cama do paciente e não do púlpito, assim como lavar as mãos antes de fazer um parto ou cirurgia.

 

Para saber mais sobre a educação de Freud, atravessamos o campus da primeira escola de medicina da cidade rumo ao Josephinum, prédio com as paredes cobertas de hera construído nos idos de 1780 pelo imperador Habsburgo, José II, para ser uma academia militar cirúrgica.

 

Hoje é um museu da história médica, com uma coleção de equipamentos belos, mas absolutamente aterradores dos séculos 18 e 19, incluindo um “dispositivo de procura de balas” francês, de 1870, e uma serra de amputação com o cabo entalhado na forma da cabeça de uma águia. Para mim, pareciam mais instrumentos de tortura enfeitados.

 

Ainda mais impressionantes são os quase 1.200 modelos anatômicos em cera, alguns em tamanho natural, incluindo o de uma mulher com cabelo loiro esvoaçante e colar de pérolas conhecida como “Vênus Anatômica” que poderia muito bem ser confundida com uma escultura, não fossem as entranhas removíveis. Feitos no fim do século 18 em Florença e conservados na madeira original em estojos de vidro venezianos, os modelos foram enviados a Viena através dos Alpes, no lombo de mulas, porque eram frágeis demais para serem transportados a cavalo.

 

Por trás do Josephinum está outra curiosidade da história médica: o Narrenturm, ou Torre dos Loucos, o hospital para fins psiquiátricos mais antigo da Europa, construído em 1784. Em formato circular — talvez porque se achava que isso teria um efeito positivo no humor dos pacientes — tem cara de fortaleza de pedra, com fendas estreitas no papel de janelas.

 

 

Josef Polle­ross/The New York Times

7 - restaurante plachutta - viena

Em Viena, o restaurante Plachutta serve o ensopado de carne favorito de Freud

 

Hoje abriga um museu patológico que não é para os fracos: o acervo inclui crânios deformados de sifilíticos, uma coleção de pedras renais de várias formas e tamanhos e uma bola de pelo e barbante encontrada no estômago de um paciente que comeu o próprio colchão. Embora progressista para sua época, o Narrenturm é um lembrete perturbador da maneira como as doenças mentais eram tratadas antes de pensadores como Freud ajudarem a desenvolver a psicologia moderna.

 

 

Passos freudianos

 

Durante a juventude, a vida profissional de Freud foi errática; o caminho para o divã nunca foi simples e direto. Passou um tempo em Paris estudando o hipnotizador Charcot e explorou tudo, desde a anatomia sexual das enguias ao uso da cocaína como anestésico — mas assim que se estabeleceu no consultório e apartamento da Berggasse 19, tornou-se uma criatura de hábitos quase obsessivos.

 

Ia ao barbeiro para aparar a barba diariamente. Almoçava sempre à mesma hora (13h), exigindo a presença de toda a família, antes de sair a pé para comprar charutos ou passear com o cachorro. Possuía apenas três ternos, três pares de sapatos e três conjuntos de roupa de baixo. Como todo vienense que se prezasse, tinha seu café favorito, o Landtmann, ainda um dos mais requintados, embora turístico, exemplos das cafeterias clássicas da cidade.

 

Seus hábitos alimentares eram bem básicos. Gostava do cozido de carne tradicional austríaco, o tafelspitz, uma versão mais magra do pot-au-feu francês que é servido com vários acompanhamentos: caldo quente com panquecas fatiadas, molho de maçã e raiz forte, purê de legumes, batata frita. É um prato de simplicidade quase antisséptica e, apesar disso, extremamente substancioso.

 

Freud morou e trabalhou na Berggasse 19, no 9º Distrito, durante 47 anos. Seu apartamento e escritório foram transformados no Museu Sigmund Freud. É preciso tocar a campainha para entrar, da mesma forma que seus pacientes neuróticos, há cem anos.

 

 

Josef Polle­ross/The New York Times

6 - Weinbau Zawodsky - viena

Perto da Himmelstrasse, é possível degustar ótimos vinhos entre bosques diminutos

 

A maior parte dos objetos pessoais do médico foi com ele para Londres quando fugiu dos nazistas — e o resultado é que esse museu não se compara, em termos evocativos, à recriação de seu escritório no outro Museu Freud, em Hampstead, Londres. Apesar disso, ainda há algumas curiosidades: na prateleira perto da entrada estão a bengala e o chapéu de Freud, protegidos por vidro desde os anos 70, quando o chapéu foi roubado, temporariamente, por um fã cleptomaníaco. Vimos uma cadeira estranha que lembrava o formato do saudoso herói de massinha Gumby, personalizada, que permitia a Freud se reclinar dramaticamente enquanto ouvia os pacientes, na sua posição favorita. A melhor parte, porém, foi a exposição temporária, “Freud’s Travels”, que aborda suas peregrinações pela Europa.

 

Foi traduzida também uma série de postais que Freud mandou para a mulher, Martha, que ficou em Viena para cuidar dos seis filhos. De Florença, ele escreveu: “Confesso que, em meio à tamanha beleza, acho que onde moro é mais bonito”. De Pontresina, na Suíça: “Mande lembranças para os pequenos e prepare-os para o fato de que não estou levando nada para casa a não ser lembranças preciosas”.

 

Freud adorava tirar férias e se referia à sua missão anual de encontrar o refúgio perfeito de verão como o “Sommerproblem”. Para começar que o período de descanso lhe oferecia a chance de sair da cidade que supostamente detestava. “Odeio Viena e, ao contrário do gigante Anteu, sinto minhas forças renovadas toda vez que tiro o pé do chão da cidade onde moro”.

 

 

No paraíso

 

Mas nem sempre tinha que ir para longe. Viena é cidade e província da Áustria e Zweig escreveu sobre a sutileza dessa divisão, notando como é difícil perceber onde a natureza termina e a cidade começa. A uma curta corrida de táxi você se encontra no campo, entre as colinas, cercado de florestas, vales, vinhedos. Uma dessas áreas, considerada talvez a mais bela, é Himmel — que literalmente significa “paraíso” — e que fica no 19º Distrito. Foi ali que Freud passou o verão de 1895 e teve o sonho mais famoso da história da psicologia.

 

O sonho em si é complicado e envolve o próprio Freud tentando eximir-se da culpa de tratar mal uma paciente chamada Irma, mas a análise que fez dele e a conclusão a que chegou — a de que os sonhos são realizações de desejos — se mostrou revolucionária.

 

 

Josef Polle­ross/The New York Times

8 - cafe landtmann - viena

Fachada do Café Landtmann, que foi muito frequentado por Sigmund Freud

 

 

Josef Polle­ross/The New York Times

1 - viena - cafe landtmann

Café Landtmann, um dos mais tradicionais de Viena com banquetas de veludo

 

Freud estava hospedado no Schloss Bellevue, um hotel e spa, quando teve esse sonho e ao voltar lá, alguns anos depois, escreveu a um amigo: “Você acha que um dia colocarão uma placa de mármore nesse prédio, com as seguintes palavras: ‘Neste edifício, em 24 de julho de 1895, o segredo dos sonhos foi revelado ao Dr. Sigmund Freud?’ Sim, por que no momento não vejo a mínima possibilidade”.

 

O Schloss Bellevue há muito desapareceu, mas há uma inscrição para imortalizar o local na pradaria verde em frente ao lugar onde ficava o hotel. Freud o descreveu como o paraíso: “A vida no Bellevue é muito agradável para praticamente todo mundo; o perfume das acácias e do jasmim se sobrepõe ao dos lilases e dos laburnos, as rosas estão desabrochando e isso tudo acontece, como posso observar, de maneira bastante repentina”.

 

Em busca de paisagens igualmente sonhadoras, descemos a Himmelstrasse, passamos por bosques minúsculos e casas elegantes, para chegar a Weinbau Zawodsky, um heuriger, ou wine bar, cercado de vinhas. Muitos desses estabelecimentos ali perto, em Grinzing, são verdadeiras armadilhas kitsch para turistas, mas esse é o contrário: se parece tanto com um chalé de verão de alguma família qualquer que você se sente quase como se fosse um intruso por jantar ali. Quando chegamos, um grupo de crianças loiras sorridentes apareceu à entrada, gargalhando ao formar uma parede com os braços estendidos para impedir a nossa entrada. Moleques, como Freud diria.

 

Nós nos sentamos em uma das mesas de piquenique e admiramos a paisagem da cidade, que parecia tão próxima ao pôr-do-sol. Do bufê vieram fatias grossas de carne de porco assada, knödel (bolinhos de pão), pepino em conserva doce, molho e purê de batata. Experimentamos, em rápida sucessão, todos os vinhos brancos que o heuriger oferecia com rótulo em alemão: riesling, gewürztraminer, weissburgunder. Estranhamente todos tinham mais ou menos o mesmo sabor, mas deliciosos a 2 euros o copo, e me veio à mente outro postal que Freud enviara a Martha e que se adequava perfeitamente ao nosso estado de espírito: “Estamos nos divertindo esplendidamente. Acho que o vinho tem muito a ver com isso. Minhas mais calorosas saudações, Sigm”.

 

 

Fonte: uol
Stephen Heyman – New York Times Syndicate
Nossa Publicação em 23.09.14.

 

 

 

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